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Mamet em suspenses, comédias e dramas de boa qualidade

O universo mametiano é fácil de ser reconhecido no meio das produções hollywoodianas. Os filmes com roteiros escritos por David Mamet têm o seu estilo inconfundível. Tramas intricadas, diálogos ágeis, secos, irônicos, personagens bem construídos, vivendo situações conflituosas em que os limites humanos são testados ao máximo.

O premiado dramaturgo e ator bissexto norte-americano estreou na direção de cinema em 1987 com o elogiado O Jogo de Emoções, que mostra a relação entre uma psicanalista e um jogador compulsivo. Em seguida veio a comédia As Coisas Mudam, que enfoca a ligação entre um gângster (Joe Mantegna) e um "laranja" (Don Ameche); o bom policial Homicídio; o polêmico Oleana, adaptação de uma peça sua, em que discute o politicamente correto dos dias atuais na tensa relação entre aluna-professor; A Trapaça, ótimo filme de suspense, à la Hitchcock, com Steve Martin e Campbell Scott; O Cadete Winslow, que subverte o gênero “filme de tribunal” ao concentrar a ação dentro da casa da família Winslow – que leva à Justiça a expulsão por roubo do jovem Ronnie da Escola Naval – e não mostra uma cena sequer do julgamento; a ácida crítica a Hollywood Deu a Louca nos Astros, que segue a linha de corrosivo cinismo de O Jogador, de Robert Altman, e, mais recentemente, O Assalto, uma homenagem aos “filmes de roubo”, com Gene Hackman em ótima interpretação como um golpista rumo à aposentadoria obrigado por Danny de Vito a dar um último golpe.

Mas Mamet já tinha deixado sua marca nos roteiros de filmes como O Destino Bate à Sua Porta, Os Intocáveis e Mera Coincidência.

Adaptações de peças de sucesso suas nem sempre tem um bom resultado no cinema. Perversidade Sexual em Chicago, que fez sucesso nos anos 70 no circuito off-Broadway, ganhou uma pálida versão cinematográfica nos anos 80 com o nome de Sobre Ontem a Noite, com os jovens astros Rob Lowe e Demi Moore. Porém, O Sucesso a Qualquer Preço, sobre a luta impiedosa de corretores de imóveis para manter seus empregos, que lhe valeu um prêmio Pulitzer, se tornou um ótimo filme, com um superelenco inspirado (Jack Lemmon, Al Pacino, Kevin Spacey, Ed Harris, Alec Baldwin).

Mamet gosta de discutir as relações homem-mulher, empregado-patrão, corporativismo-individualidade, amizade-falsidade, em tramas que respeitam a inteligência do espectador.

Às vezes, seus personagens parecem que despejam as palavras, em uma grande verborragia, mas a verdade é que nada ali é dispensável. Tudo foi pensando previamente, as repetições, as elipses, as viradas no roteiro, tudo está em seu devido lugar, inclusive o posicionamento da câmera em seus filmes, que segue o andamento natural da história.

Vale a pena conhecer o seu trabalho, mesmo quando o resultado final não é excelente, ainda está acima da média do que é produzido em Hollywood.

 

 

 

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Raquel Sá - 2004